“Estávamos em uma ação, em um local de extrema vulnerabilidade que atendemos todos os meses, e uma mãe nos chamou no canto e agradeceu por estamos aí, pois a filha tinha menstruado naquele dia e ela não tinha dinheiro para comprar absorvente. São momentos como esses que vemos que há um público esquecido”, este é relato da jornalista Ana Paula Lima, diretora do Projeto Mulheres Vivá que combate a pobreza menstrual em Roraima há quase um ano.
Assim como no caso citado pela jornalista, a menstruação, que é um processo natural do corpo feminino, ocorre com diversas mulheres no mundo, contudo, ainda é considerada tabu na sociedade. Por isso, no Dia Internacional da Luta pela Saúde da Mulher e da Visibilidade Menstrual, comemorado nesta sexta-feira (28), a reportagem entrevistou a jornalista e autora do projeto que trata do tema para saber mais sobre as dificuldades enfrentadas pelo público feminino e por quem luta pela saúde pública no estado.
“QUESTÃO DE SAÚDE PÚBLICA”
“Há diversos desafios quando falamos sobre menstruação, o tabu sobre o período menstrual afeta diretamente milhares de meninas e mulheres ao redor do mundo, que são impedidas de várias atividades por essa falta de acesso à informação e a produtos menstruais”, destacou.
O problema citado por Ana Paula é conhecido como pobreza menstrual, caracterizado pela falta de acesso a recursos, infraestrutura e até conhecimento por parte de pessoas que menstruam para cuidados envolvendo a própria menstruação. Foi pensando em mudar este cenário que a comunicadora criou o Projeto Mulheres Vivá, que realiza doações de itens básicos de higiene em Roraima.

Ana Paula Lima utiliza o projeto Mulheres Vivá para levar conhecimento a mulheres em situação de vulnerabilidade – (Arquivo Pessoal/Ana Paula Lima)
Ela explica que no estado há uma diversidade de perfis de mulheres em vulnerabilidade socioeconômica, aumentada pela migração venezuelana e pandemia do novo coronavírus.
“Mesmo atuando ativamente todos os meses na cidade, o assunto ainda não é discutido em ampla escala e a pobreza menstrual e segue como um problema. Isso é resultado da falta de interesse no assunto e de olhar para essas mulheres, que menstruam todos os meses e são ignoradas, precisando utilizar meios extremos para conter o sangue, isso pode ocasionar em infecções no sistema reprodutivo. Menstruação e o bem-estar feminino são questões de saúde pública”, alertou.
DEBATE
Conforme o relatório do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) lançada neste ano, 713 mil meninas brasileiras vivem sem acesso a banheiro ou chuveiro em seu domicílio e mais de 4 milhões não têm acesso a itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas.
Os dados apresentados demonstram como, no Brasil, crianças e adolescentes que menstruam têm os direitos à escola de qualidade, moradia digna, saúde, incluindo sexual e reprodutiva, violados.
Diante disso, o projeto realizado pela jornalista e outras voluntárias apresenta uma alternativa para transformar essa realidade através das doações e debates.
“O projeto está aberto para debatermos sobre menstruação e para ajudarmos. Trabalhamos voluntariamente e precisamos regularmente de doações. Hoje, temos o que comemorar, pois vemos que as pessoas estão dispostas a falar. A maior parte desse interesse é de mulheres, pois aprendemos a nos envergonhar da menstruação, então, muitas querem a troca de experiências. Além disso, vemos também que homens estão dispostos a enxergarem a menstruação diferente do que foi ensinado e ajudar mulheres em situação de vulnerabilidade”, destacou.
DOAÇÕES
O Mulheres Vivá já fez a entrega de mais de 500 kits de higiene em Boa Vista em diversos bairros da cidade. Para a diretora da iniciativa, cada entrega realizada é significativa.
“Atendemos meninas e mulheres independente da nacionalidade. Para mim, toda entrega é uma história que marca, pois vejo nos sorrisos e olhos dessas meninas e mulheres a gratidão de serem atendidas com algo tão básico e necessário para a natureza humana. Por esses motivos que trabalhamos para apoiar mulheres, já que enquanto uma mulher estiver em necessidade, todas nós estamos”, completou.
Para quem tiver interesse em ajudar o projeto, basta doar absorventes, sabonetes, lenços umedecidos, desodorantes, creme dental, escova de dente e papéis higiênicos. A iniciativa também recebe voluntárias desde que sejam mulheres maiores de 18 anos.
“Temos dois pontos de coleta: Ternura Flores (Rua Barão do Rio Branco, 262, Centro) e OAB Roraima (Av. Ville Roy, Caçari). Também aceitamos doações em dinheiro, independente do valor”, finalizou.