A Hutukara Associação Yanomami divulgou imagens inéditas dos impactos ambientais causados pelo garimpo no Rio Uraricoera, na Terra Indígena Yanomami, em Alto Alegre, interior de Roraima. As fotos foram feitas em sobrevoos nos dias 7 e 9 de abril de 2021.
A entidade chamou a região de “nova Serra Pelada”, em alusão à região no Pará que teve a fauna e flora dizimada pela maior exploração de garimpo a céu aberto no mundo, na década de 1980.
Em março de 2021, análises de imagens de satélite indicaram um total de 2.430 hectares destruídos pelo garimpo na Terra Yanomami, o que equivale a 24,3 milhões de metros quadrados.
Só no primeiro trimestre deste ano, a área destruída cresceu quase 200 hectares. Somente em 2020, 500 hectares de floresta amazônica foram devastados. Nesse ritmo, conforme a organização, 2021 deve marcar um novo recorde de destruição.
O relatório dos sobrevoos feitos em abril foi elaborado pela Hutukara. A entidade relata que, recentemente, a atividade ilegal se expande nas calhas dos Rios Mucajaí e Catrimani, nas regiões de Kayanau, Homoxi e Alto Catrimani. Antes, as grandes áreas impactadas se concentravam no Uraricoera.
“Tal fenômeno é um importante indicador do desenvolvimento das estruturas de apoio [logística e de serviços] nessas zonas, e deveria servir de alerta para os riscos da consolidação de novas ‘cidades’ do garimpo”, sublinha o documento.
A Hutukara salienta que é possível reduzir o garimpo na região, mesmo que já haja mais 20 mil garimpeiros na localidade. Para isso, segundo a entidade, seria necessário interesse dos governos estadual e federal.
“O Estado possui todas as condições para fazer valer a lei e promover a neutralização dos crimes praticados pelo garimpo contra os indígenas da TI Yanomami e o restante da sociedade brasileira”, afirma.
A Hutukara relembra que “a experiência do passado prova que isso é possível, por meio de ações estratégicas. Acelerar o tempo de resposta a este desafio, a partir de um plano de ação estratégico e coordenado, é também uma forma de preservar recursos da União e valorizar seu patrimônio”.

MERCÚRIO
Além do desmatamento, violência contra os povos yanomami, disseminação de doenças como a malária e a Covid-19, outro crime preocupa as organizações: a contaminação dos rios por mercúrio, principalmente o Rio Branco, que abastece a capital Boa Vista.
O Rio Branco é a principal bacia que drena a água de quase todas as serras, nascendo da confluência do Rio Uraricoera e Rio Tacutu, e tem como destino final o Rio Negro, no Amazonas.
Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Instituto Sociambiental (ISA) em 2014 mostrou que em algumas aldeias yanomami têm 92% das pessoas examinadas contaminadas por mercúrio. As entidades citam que o dado é reflexo da invasão ilegal de garimpeiros.
MORTE
Para o geólogo, pesquisador e professor doutor na Universidade Federal de Roraima (UFRR), Vladimir de Souza, a presença do metal pesado causa mortes de indígenas, e pode provocar o adoecimento de quem vivem em áreas urbanas do estado.
“O garimpo está no alto Rio Uraricoera e no Alto do Rio Mucajaí, mas todos são afluentes do Rio Branco e passam por Boa Vista. Os próprios pescadores podem vender esses peixes contaminados. Essa contaminação não fica restrita às terras indígenas, mas se espalha por toda bacia hidrográfica. Não importa se está a 200 ou 600 km, essa contaminação vai chegar se nada for feito”, alertou.
O pesquisador frisou que o Poder Público precisa fiscalizar todo o tipo de atividade que devasta o meio ambiente e que afeta um bem vital: a água. Para ele, além da destruição do rios e igarapés, outro grave problema que pode surgir é com a saúde.
“Se a gente não se preocupar agora, podemos cometer o mesmo erro que está acontecendo nessa pandemia da Covid-19, pensar que é algo passageiro, e não é. Podemos ter no futuro pessoas doentes, vítimas dessa contaminação, pagando um preço alto na saúde pública”, alertou.

USO
O mercúrio é um metal altamente tóxico, usado no processo de separação do ouro dos demais sedimentos. Uma parte dele é despejada nos rios e igarapés, e a outra é lançada na atmosfera. As águas dos rios e os peixes que ingerem o mercúrio podem levá-lo para regiões mais distantes.
A contaminação de seres humanos se dá principalmente através da ingestão de peixes contaminados, sobretudo os carnívoros e de tamanho maior.
Os danos à saúde costumam ser graves e permanentes: alterações diretas no sistema nervoso central, causando problemas de ordem cognitiva e motora, perda de visão, doenças cardíacas entre outras debilidades. Nas mulheres gestantes, os danos são ainda graves, pois o mercúrio atinge o feto e caus deformações irrecuperáveis.