Garimpeiros armados mataram a tiros um cachorro na comunidade Maikohipi, na Terra Yanomami, em Roraima, e ameaçaram indígenas. O caso ocorreu nessa quinta-feira (10) e foi informado pela Hutukara Associação Yanomami à Fundação Nacional do Índio (Funai), Polícia Federal (PF), Exército Brasileiro e Ministério Público Federal (MPF).
Esse é o terceiro relato de ataques de invasores à população indígena em menos de uma semana. No dia 5 de junho, garimpeiros lançaram bombas contra a mesma comunidade. Já no dia 8 de junho, eles atiraram contra um grupo que voltava de uma caçada.
No ofício sobre o último episódio, o vice-presidente da Hutukara, Dário Kopenawa, disse que a população indígena foi ameaçada duas vezes no mesmo dia pelos invasores e que eles “eram muitos e carregavam armas”.
Conforme o documento, a primeira ameaça ocorreu às 11h20 de ontem, quando os Yanomami escutaram garimpeiros se aproximando e gritando: “Vem viado! Vamos conversar! Comparece aí!”.
Depois disso, garimpeiros deixaram o local e retornaram às 16h25, ameaçaram os indígenas e, antes de se retirarem, mataram um cachorro dos moradores que latia à beira do rio.
“Mais uma vez alertamos sobre a permanente e crescente situação de insegurança na comunidade Palimiú, que segue sob ameaça constante de garimpeiros fortemente armados”, ressaltou Kopenawa, ao acrescentar que a região necessita de tropas contínuas de segurança.
“Insistimos novamente para que impeçam o avanço da atividade ilegal para garantir a segurança às comunidades indígenas […] inclusive garantindo a presença constante das forças públicas de seguranças na região e fornecimento contínuo de apoio logístico para operações”.
CONFLITOS
Há mais de um mês são registrados conflitos na Terra Yanomami. Conforme a Hutukara, o primeiro caso ocorreu no dia 10 de maio, quando sete embarcações com garimpeiros armados atacaram a comunidade Palimiú. Seis dias depois, eles retornaram e lançaram bombas contra a mesma comunidade.
No dia 31 de maio, criminosos invadiram a Estação Ecológica de Maracá e roubaram materiais utilizados no garimpo ilegal, que tinham sido apreendidos em uma fiscalização. As entidades repudiaram o caso e cobraram ações de segurança.
Já no dia 5 de junho os invasores atiraram bombas de gás lacrimogênio na comunidade de Maikohipi, próximo à primeira comunidade atacada em maio. Após três dias, a mesma região voltou a ser atacada por garimpeiros que atiraram contra indígenas que retornavam de uma caçada. Eles tiveram que fugir pelo rio.
De acordo com a Associação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), foram enviados 13 ofícios entre abril de 2020 e maio de 2021 sobre a expansão do garimpo ilegal. Os documentos destacam que a presença dos garimpeiros ameaça a segurança dos indígenas e propaga casos de coronavírus.
Roraima tinha 6.094 casos de Covid-19 entre os povos indígenas até 1º de junho, segundo dados da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). O número de morte está em 143 e atinge oito etnias.
FORÇAS ARMADAS
No dia 24 de maio, o ministro Luís Roberto Barroso do Supremo Tribunal Federal (STF) determinou o envio de tropas de segurança à região. Depois disso, uma operação foi realizada pela PF em parceria com outros órgãos entre 12 de maio e 4 de junho. Durante os conflitos, até a Federal foi alvo de tiros.
A decisão do ministro Luís Roberto Barroso enfatizou que os agentes de segurança devem permanecer no local até a retirada total de invasores. Contudo, isso não ocorreu, segundo os indígenas. O Ministério Público do Estado de Roraima (MPRR) estima que cerca de 20 mil garimpeiros exploram ilegalmente a região.
No dia 9 de junho, o Ministério da Defesa pediu ao Ministério da Economia abertura de crédito extraordinário de R$ 20,9 milhões para enviar tropas das Forças Armadas para sete terras indígenas que registram a presença de invasores, incluindo a Terra Yanomami em Roraima.